O outro lado



Não há portas para uma vida que não foi a nossa.
Uma esquina é toda a possibilidade de surpresa que me resta.
Há uma passagem que é o caminho feito ao contrário.
Estou virado do avesso, mas ainda assim sou o côncavo e o convexo de mim próprio.
Tenho sido o que ainda estou para ser: o outro lado de lado nenhum.

Flutuar no fundo

É a tua voz que resvala pela falésia dos meus medos...?
Dizes-me, como um murmúrio esfolado pelas rochas...
Eu que te sei flutuando esplendorosa nas águas azuis do céu,
e tu que me sabes espalhado por todo o lado, como um manto diáfano.

Está tanto frio que a lareira não acende, as brasas arrefecem como chamas implodidas.
Tenho as pontas dos dedos tão geladas que podem partir-se a qualquer instante.
Calço luvas sem dedos, estou mal agasalhado.
Sou uma fina placa de gelo na superfície da minha vida.

Só patinadores alados podem divertir-se na minha pele de cristal.
Os teus passos estalam a película de nevoeiro transparente.
O som da nossa distância é esse estalido permanente que ecoa
como uma racha de progressão lenta no ar polar do nosso inverno.